Por que ranger e apertar os dentes não é o problema central?

Alael Barreiro Fernandes de Paiva Lino

2/21/20261 min read

Quando um paciente relata que “range os dentes”, a tendência imediata é direcionar o foco para os dentes.

Desgaste. Fratura. Dor muscular. Sensibilidade.

Mas esses são efeitos periféricos, não a origem do fenômeno.

O ranger e o apertar fazem parte de um comportamento denominado bruxismo. E, segundo a literatura contemporânea, o bruxismo — especialmente o bruxismo do sono — é um evento motor associado à ativação do sistema nervoso central, frequentemente relacionado a microdespertares e instabilidade autonômica.

Ou seja: o movimento mandibular é consequência de uma ativação neural prévia.

O problema central, portanto, não está nos dentes. Está na regulação neurofisiológica que antecede o movimento.

Diversos estudos mostram que episódios de bruxismo do sono são precedidos por:

  • aumento da atividade simpática

  • microdespertares

  • alterações na frequência cardíaca

  • ativação cortical transitória

O contato dentário acontece depois.

Se tratamos apenas o contato, protegemos estruturas — o que é importante — mas não interferimos necessariamente no mecanismo que gera o comportamento.

É por isso que a placa miorrelaxante é um excelente recurso de proteção mecânica, mas não deve ser interpretada como tratamento etiológico.

Ranger não é o inimigo.

É um sinal.

É a manifestação periférica de um organismo que está tentando regular algo internamente.

O foco clínico, portanto, não deve ser “parar o ranger”, mas compreender:

• Como está a qualidade do sono desse paciente?
• Existe fragmentação do sono?
• Há sinais de hiperativação autonômica?
• O paciente apresenta sintomas compatíveis com distúrbios respiratórios do sono?
• Há fatores emocionais ou comportamentais relevantes?

Quando mudamos a pergunta, mudamos o tratamento.

O erro conceitual de tratar apenas os dentes limita o alcance terapêutico. A Odontologia, nesse contexto, precisa atuar integrada à fisiologia do sono e ao funcionamento do sistema nervoso.

Proteger os dentes é necessário.

Mas não é suficiente.

Essa visão clínica está estruturada de forma detalhada no livro Bruxismo – Abordagem Terapêutica Integrativa, no qual proponho uma abordagem baseada em evidências, integração interdisciplinar e responsabilidade terapêutica.

Bruxismo não se combate.
Bruxismo se compreende — e se maneja.