A relação entre o uso do Celular a noite e o Bruxismo Noturno

Prof. Dr. Alael Barreiro Fernandes de Paiva Lino

5/23/20263 min read

A relação entre o uso de dispositivos eletrônicos (como celulares) no período noturno e o agravamento ou desencadeamento do bruxismo do sono é fundamentada na neurofisiologia do ciclo vigília-sono e na resposta do sistema nervoso autônomo ao estresse visual e cognitivo.

Abaixo, detalham-se os mecanismos biológicos envolvidos:

1. Supressão da Melatonina e Ciclo Circadiano

A luz emitida pelas telas de LED dos smartphones possui um comprimento de onda curto, predominante no espectro da luz azul (aproximadamente 450 a 480 nm)

- Esta luz atinge as células ganglionares da retina, que enviam sinais ao núcleo supraquiasmático no hipotálamo.

- O resultado é a inibição da glândula pineal na secreção de  melatonina, o hormônio responsável pela indução do sono e pela regulação do ritmo circadiano.

- A redução da melatonina prolonga a latência do sono e fragmenta sua arquitetura, aumentando a ocorrência de microdespertares.

2. Microdespertares e Atividade Simpática

O bruxismo do sono ocorre predominantemente durante as transições entre estágios de sono, especificamente associado aos microdespertares.

- O uso do celular mantém o cérebro em um estado de hiperalerta (hiperestimulação cognitiva).

- Esse estado promove um desequilíbrio no sistema nervoso autônomo, elevando a atividade do sistema nervoso simpático em detrimento do parassimpático.

- Estudos polissonográficos demonstram que episódios de RMMA são precedidos por um aumento na frequência cardíaca e na atividade simpática, fenômenos exacerbados pela má qualidade do sono induzida pelas telas.

3. Estresse Cognitivo e Cortisol

O conteúdo consumido (redes sociais, e-mails de trabalho ou notícias) pode elevar os níveis de cortisol e adrenalina.

- O estresse psicológico é um dos principais fatores etiológicos secundários do bruxismo.

- A antecipação de respostas ou a ansiedade gerada pela interação digital aumenta a tensão muscular basal, incluindo os músculos masseter e temporal, facilitando o apertamento dental durante a noite.

4. Arquitetura do Sono e Movimentos Mandibulares

O uso excessivo de telas reduz o tempo de sono REM  e altera a estabilidade das fases não-REM (N1 e N2).

- É justamente nas fases de sono leve (N1 e N2) que a maioria dos eventos de bruxismo é registrada.

- Ao impedir que o paciente atinja e mantenha estágios de sono profundo e reparador, o celular atua como um gatilho para a atividade motora orofacial involuntária.

Conclusão Clínica

Para o manejo ortodôntico e de desordens temporomandibulares (DTM), a higiene do sono torna-se uma intervenção comportamental crucial. A recomendação de cessar o uso de telas pelo menos 60 minutos antes de deitar visa reduzir a estimulação adrenérgica e permitir a homeostase neuroquímica necessária para a estabilidade do sistema estomatognático durante o repouso.

Relação entre Higiene do Sono e Bruxismo

  • Referência: Serra-Negra, J. M., et al. "Is there an association between sleep bruxism and use of electronic devices?" Journal of Oral Rehabilitation, 2017.

  • Contribuição: Este estudo investiga diretamente a correlação entre o uso de gadgets(smartphones e tablets) antes de dormir e a prevalência de bruxismo. Os autores discutem como a estimulação visual e cognitiva desses aparelhos altera a arquitetura do sono, favorecendo episódios de apertamento dental em crianças e adolescentes, com implicações para a vida adulta.

Luz Azul e Supressão de Melatonina

  • Referência: West, K. E., et al. "Blue light from light-emitting diodes elicits a dose-dependent suppression of melatonin in humans." Journal of Applied Physiology, 2011.

  • Contribuição: Um artigo clássico que quantifica o impacto das telas de LED na glândula pineal. Ele fundamenta o mecanismo fisiológico de supressão da melatonina pelo comprimento de onda de 450 a 480 nm, explicando por que o uso do celular retarda o início do sono e altera os ciclos REM/NREM.

Microdespertares e Atividade Rítmica Muscular (RMMA)

  • Referência: Lavigne, G. J., et al. "Neurobiological mechanisms involved in sleep bruxism." Critical Reviews in Oral Biology & Medicine, 2003.

  • Contribuição: O grupo do Dr. Gilles Lavigne é a maior autoridade mundial no tema. Este artigo detalha como o bruxismo do sono é uma resposta a microdespertares (arousals) e como a ativação do sistema nervoso simpático precede a atividade muscular mastigatória, conectando o estado de alerta (induzido pelo celular) ao evento motor.

Estresse, Cortisol e Bruxismo do Sono

  • Referência: Karakoulaki, S., et al. "The association between sleep bruxism, cortisol, and psychological state." Journal of Oral & Facial Pain and Headache, 2015.

  • Contribuição: Este estudo avalia os biomarcadores de estresse e sua relação com o bruxismo. Ele corrobora a ideia de que o aumento do cortisol e a ansiedade (frequentemente exacerbados pelo consumo de conteúdo digital noturno) elevam a frequência de eventos de bruxismo durante a noite.