Manifesto Clínico do Bruxismo

Uma abordagem terapêutica integrativa, baseada em ciência, clínica e consciência

Alael Barreiro Fernandes de Paiva Lino

1/5/20263 min read

O bruxismo não é uma doença isolada, tampouco um problema exclusivamente odontológico. Trata-se de um comportamento motor complexo, com origem central, multifatorial e fortemente relacionado à regulação do sono, à atividade do sistema nervoso autônomo e a fatores psicofisiológicos. A ciência contemporânea é clara ao demonstrar que o bruxismo deve ser compreendido como um fenômeno funcional, e não como uma entidade patológica única a ser “eliminada”.

Ao longo das últimas décadas, o entendimento científico do bruxismo evoluiu significativamente. Abandonou-se a visão estritamente mecânica e oclusal, dando lugar a um modelo biopsicossocial, no qual o comportamento bruxista pode estar associado a microdespertares do sono, instabilidade autonômica, estresse crônico, ansiedade, uso de determinadas medicações e alterações na arquitetura do sono.¹–³

Neste contexto, reduzir o manejo do bruxismo à confecção de uma placa oclusal é insuficiente. Dispositivos intraorais exercem papel importante na proteção das estruturas dentárias e na modulação periférica, mas não constituem, isoladamente, tratamento etiológico. A expectativa de “cura” por meio de soluções únicas e padronizadas não encontra respaldo na literatura científica atual.⁴

Este manifesto defende uma abordagem terapêutica integrativa, ética e baseada em evidências, na qual o cirurgião-dentista atua como profissional de saúde ampliado, capaz de interpretar o bruxismo como um sinal de desregulação sistêmica, e não como um inimigo a ser combatido. O foco deixa de ser o sintoma isolado e passa a ser o indivíduo em sua totalidade.

Essa abordagem inclui:

  • avaliação criteriosa da qualidade do sono e dos hábitos de vida;

  • reconhecimento do papel do sistema nervoso central e do sistema nervoso autônomo;

  • educação do paciente como eixo central do tratamento;

  • uso consciente de recursos odontológicos, como placas miorrelaxantes, dentro de seus limites clínicos;

  • integração interdisciplinar com Medicina do Sono, Psicologia, Fisioterapia e outras áreas da saúde, sempre que indicado.⁵–⁷

O manejo do bruxismo é um processo clínico contínuo, individualizado e dinâmico. Não se trata de suprimir um comportamento, mas de compreender o contexto no qual ele surge, se mantém ou se intensifica. Em muitos casos, o bruxismo atua como um marcador de estresse fisiológico ou emocional, refletindo tentativas adaptativas do organismo.⁸

Rejeito abordagens reducionistas, promessas de cura e intervenções desconectadas da fisiologia humana. Defendo uma Odontologia baseada em ciência atualizada, experiência clínica e respeito à complexidade do ser humano. O verdadeiro avanço no tratamento do bruxismo ocorre quando o profissional compreende que silenciar o sintoma não é o mesmo que promover saúde.

Este manifesto não propõe uma técnica exclusiva, mas uma forma de pensar e conduzir o cuidado clínico. Uma Odontologia que dialoga com a ciência contemporânea, reconhece seus limites e coloca o paciente no centro do processo terapêutico.

Referências bibliográficas

  1. Lobbezoo F, Ahlberg J, Glaros AG, et al. Bruxism defined and graded: an international consensus. J Oral Rehabil. 2013;40(1):2–4.

  2. Lobbezoo F, Ahlberg J, Manfredini D, et al. International consensus on the assessment of bruxism: report of a work in progress. J Oral Rehabil. 2018;45(11):837–844.

  3. Lavigne GJ, Kato T, Kolta A, Sessle BJ. Neurobiological mechanisms involved in sleep bruxism. Crit Rev Oral Biol Med. 2003;14(1):30–46.

  4. Manfredini D, Winocur E, Guarda-Nardini L, Paesani D, Lobbezoo F. Epidemiology of bruxism in adults: a systematic review. J Orofac Pain. 2013;27(2):99–110.

  5. Carra MC, Huynh N, Lavigne GJ. Sleep bruxism: a comprehensive overview for the dental clinician interested in sleep medicine. Dent Clin North Am. 2012;56(2):387–413.

  6. Sateia MJ. International classification of sleep disorders—third edition. Chest. 2014;146(5):1387–1394.

  7. Riemann D, Spiegelhalder K, Feige B, et al. The hyperarousal model of insomnia: a review of the concept and its evidence. Sleep Med Rev. 2010;14(1):19–31.

  8. Winocur E, Messer T, Eli I. Awake bruxism and psychosocial factors among adolescents. J Oral Rehabil. 2019;46(3):229–234.